O plano de independência financeira

"A goal without a plan is just a wish." Saint-Exupéry, A.

Você realmente gosta de trabalhar?

Típico trabalhador brasileiro indo ao trabalho na segunda-feira
Típico trabalhador brasileiro indo ao trabalho na segunda-feira

Quando eu era adolescente fiz um teste vocacional na minha escola. Testes vocacionais me lembram do horóscopo. Mas embora o horóscopo funcione para uma boa percentagem de pessoas de várias idades, o teste vocacional só funciona para adolescentes de 16 anos.

Com 16 anos você é novo o suficiente para aceitar qualquer emprego ou profissão que lhe oferecerem ou sugerirem. E foi isso que eu fiz! Por sorte, perdi apenas um ano antes de mudar a minha decisão para algo que me desse mais dinheiro.

Aprendi rápido que na escolha da sua profissão, o dinheiro é mais importante do que “fazer algo que você gosta”. Até porque os gostos mudam com o tempo, mas mudar de profissão é muito mais difícil.

Mas parece que esqueci disso no meio do caminho. Foquei em projetos que gostava mas que não necessariamente me rendiam um bom dinheiro. Aos poucos comecei a gostar menos do que estava fazendo. Passei a viver de salário em salário, pagando boletos e fazendo novas dívidas, com a expectativa de um dia se aposentar para aproveitar a vida, viajar, e fazer sabe-se lá o que os aposentados fazem.

Você se vê trabalhando até os 65 anos?

Quando só falta mais um ano para se aposentar e curtir a vida
Quando só falta mais um ano para se aposentar e curtir a vida

Esse plano definitivamente não era muito bom. Aproveitar a vida depois dos 65 anos? Sério? Precisava de um plano melhor.

Foi aí que decidi organizar minhas finanças e construir um patrimônio que me garantisse uma renda passiva suficiente para cobrir meus gastos e fazer com que o trabalho fosse algo opcional. Então poderia me dedicar a qualquer projeto que atraísse meu interesse no momento sem se importar com o quanto ganharia.

Com comprometimento e um salário razoável é possível alcançar a independência financeira em cerca de uns 20 anos ou menos. Desde que você tenha um bom plano.

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO PLANO

O princípio básico do plano de independência financeira é simples: fazer aportes mensais em um portfólio de longo prazo com boa diversificação e bons ativos. Para isso, é necessário focar em três pontos essenciais.

1. Realizar aportes consistentes de pelo menos 30% do salário mensal

Poupança mensal na HP
Poupe pelo menos 30% de seu salário

No Brasil é razoável supor que você precise um portfólio de cerca de 20 a 25 vezes o seu salário anual para conseguir se aposentar. Essa conta se baseia em uma Taxa Segura de Retirada entre 4% a 5% ao ano, ou seja, o percentual que você espera retirar de seu portfólio todo ano até o final da vida. Confira este site para entender mais sobre a TSR.

O tempo que você irá demorar para construir esse portfólio dependerá do tamanho de seus aportes e da rentabilidade de seus investimentos. Assim, a tabela abaixo mostra algumas simulações.

Taxa de retirada
(TSR)
Poupança
(% do salário)
Rentabilidade
da carteira
Tempo para
aposentadoria
4% a.a.30% a.m.0,5% a.m.30 anos
4% a.a.30% a.m.1% a.m.20 anos
5% a.a.30% a.m.0,5% a.m.26,9 anos
5% a. a.30% a. m.1% a.m.18,4 anos
4% a.a.40% a.m.0,5% a.m.26 anos
4% a.a. 40% a.m. 1% a.m. 18 anos
5% a. a.40% a.m. 0,5% a.m.23,2 anos
5% a. a.40% a.m. 1% a.m. 16,3 anos
4% a.a.50% a.m. 0,5% a.m.23,2 anos
4% a.a.50% a.m. 1% a.m.16,3 anos
5% a. a.50% a.m. 0,5% a.m.20,5 anos
5% a. a.50% a.m. 1% a.m.14,7 anos

Se você consegue poupar mais de 30% de seu salário, é razoável supor que consiga ter o suficiente para se aposentar em uns 20 anos.

Logo, essa foi a minha regra inicial: poupar pelo menos 30% do meu salário todo o mês.

Mas como é possível poupar 30% de seu salário por mês?

A primeira coisa a fazer é colocar todo o seu orçamento mensal em uma planilha. Sim, eu sei que você também tem gastos anuais e outros que não seguem uma periodicidade certa, mas some estes gastos e divida por 12. Tente fazer a melhor estimativa possível de seus gastos mensais e divida em categorias claras: mercado, restaurantes e bares, transporte, farmácia, bens de consumo, internet, celular, luz, água, financiamento do imóvel, condomínio, seguros, anuidades, etc.

Quando você terminar de construir essa planilha reveja item a item e pense em como poderia reduzir o gasto de cada categoria. Logo depois, anote essas ações ao lado da respectiva linha para se lembrar delas com frequência. Em algumas categorias pode não haver espaço para cortes, mas em boa parte delas haverá.

Como posso reduzir gastos?

Algumas formas de economizar incluem:

  • Moderar idas a restaurantes e fazer refeições em casa
  • Pesquisar preços no supermercado
  • Moderar ida a bares e consumo de bebida alcóolica
  • Evitar tele-entrega
  • Pagar contas adiantado quando há desconto (IPVA, IPTU, etc.)
  • Usar smiles, cupom de descontos, cashback, etc.
  • Abastecer em postos mais baratos e pesquisar preço na hora da revisão do carro
  • Verificar o preço de outros planos de internet, celular, etc.
  • Eliminar assinaturas desnecessárias (jornais, revistas, netflix, spotify, conselhos, etc.)
  • Fechar contas em banco com tarifas e cancelar cartões de crédito com anuidades
  • Controlar o consumo por impulso

Enfim, a criatividade é sua amiga na hora de poupar uma grana extra. Note que a maior parte dessas coisas podem ser feitas sem que seu bem-estar diminua significativamente. Na verdade, quando você consome menos, você acaba aproveitando mais as ocasiões em que você gasta dinheiro. Um jantar fora tem mais valor para quando você não janta fora todo dia.

Se mesmo depois de todas essas medidas você ainda não conseguir chegar a 30% da sua renda, você sempre pode procurar maneiras de aumentá-la, seja através da sua carreira profissional ou com fontes de renda extra.

2. Elaborar uma carteira ideal de longo prazo

Elaborando a carteira de investimentos ideal
Elaborando a carteira de investimentos ideal

Depois de conseguir fazer uma poupança consistente agora é preciso construir uma estratégia de investimento que lhe proporcione um bom retorno esperado de longo prazo. Aqui exponho os princípios gerais da carteira de investimentos ideal, para maiores detalhes consulte aqui.

Uma carteira que lhe garanta a independência financeira deve focar essencialmente em investimentos de longo prazo, como ações, imóveis ou fundos imobiliários, e títulos pré-fixados ou indexados à inflação.

Entretanto, é possível alocar um pequeno percentual para operações de curto prazo (day-trade, swing trade, mercados derivativos) caso você tenha conhecimento suficiente para construir uma estratégia que explore algum tipo de ineficiência de mercado.

Mas não basta apenas ter investimentos de longo prazo, é preciso diversificar...

Como diversificar sua carteira de investimentos?

A diversificação deve ocorrer em vários níveis. Alguns que serão considerados para a construção da carteira de investimentos ideal incluem:

  • Entre países (Ex: ativos do Brasil e dos EUA);
  • Entre tipos de ativos (Ex: ações, imóveis ou FIIs, renda fixa, etc);
  • Entre ativos da mesma classe (Ex: ações de empresas distintas, FIIs de diferentes gestoras, títulos de renda fixa com diferentes indexadores, prazos e emissores);
  • Entre setores ou localidades (Ex: ações de empresas de setores distintos, FIIs com imóveis em localidades distintas)

Mas por que a diversificação é necessária?

A diversificação é necessária uma vez que é muito difícil prever quais ativos irão ter boa performance nos próximos 20 anos.

Warren Buffet uma vez disse:

“Diversificação só é necessária quando os investidores não entendem o que estão fazendo.”

E eu concordo! Mas Sócrates também disse: “Só sei que nada sei“. Ou seja, a estratégia mais segura é supor que você seja um pouco ignorante mesmo, ainda mais quando se trata de investimentos.

Logo, não menospreze a diversificação. Mas lembre de sempre fazer investimentos em bons ativos. A diversificação nunca é uma justificativa para incluir um ativo ruim na sua carteira.

E quanto a liquidez da carteira?

Como o plano de independência financeira é um objetivo de longo prazo, a liquidez dos ativos não será um critério tão importante no início. Conforme a perspectiva de se aposentar se aproxima, a liquidez começa a se tornar uma variável mais relevante.

Entretanto, alguns cuidados são necessários quando se trata de liquidez:

  1. Ações e FIIs com muito pouca negociação em geral significa que há pouco interesse do público, o que é um sinal para você se manter longe;
  2. É necessário ter uma reserva de emergência com liquidez imediata (tesouro direto ou cdb pós-fixado) para enventualidades ou pagamentos à vista com desconto.

Composição da carteira

Assim, a carteira ideal em geral será composta por:

  • Ações brasileiras;
  • Ações estrangeiras;
  • Fundos de investimento imobiliário ou imóveis;
  • Títulos públicos e privados de renda fixa;
  • Pequeno valor reservado para operações de curto prazo;
  • Reserva de emergência com liquidez diária.

Eventualmente poderão ser acrescentados outros ativos na carteira.

Um dos princípios fundamentais na construção e manutenção da carteira é reduzir ao máximo os custos, taxas e necessidade de intermediários, por isso limita-se o número de transações e evita-se ao máximo o investimento em fundos administrados por terceiros (a não ser que haja uma boa justificativa para isso).

Os detalhes específicos da seleção dos ativos e da composição da carteira de investimentos ideal podem ser consultados aqui.

3. Elaborar uma estratégia de alocação dos aportes na carteira

Definindo a alocação da carteira de investimentos
Definindo a alocação da carteira de investimentos

Uma vez definida a composição ideal da carteira, há duas estratégias a considerar para a alocação dos recursos advindos da poupança mensal:

  1. Alocar os recursos de modo a manter a composição da carteira sempre constante (o que implica investir nos ativos que ficaram mais para trás em termos de rentabilidade);
  2. Definir os aportes com base nos preços vigentes e em múltiplos como Preço/Lucro, Preço/Ebit, EV/Ebit e Preço/VP.

Note que a primeira opção pressupõe que a precificação dos ativos é sempre eficiente e nada podemos fazer a respeito (não há bolhas, reação exagerada ou outras ineficiências).

Já a segunda opção considera que as pessoas podem errar na precificação dos ativos de tempos em tempos (podem estar pagando muito caro por um ativo que não vale tudo isso, ou então deixando de comprar ativos que custam mais barato do que estão sendo negociados).

A estratégia da carteira será utilizar um meio-termo entre as duas opções. Para a seleção dos aportes na carteira de ações e o percentual de composição renda fixa/variável, os múltiplos serão considerados. Já para a carteira de FIIs e de renda fixa, os preços não serão relevantes.

Mas quais serão os percentuais?

A alocação entre Ações e Renda Fixa/FIIs poderá ser alterada de acordo com os múltiplos do mercado acionário, mas sempre dentro do intervalo de 50/50 até 75/25. Assim como a alocação entre ações do Brasil e outros países, que pode ficar entre 50/50 a 80/20. Já a alocação entre títulos de renda fixa e FIIs ficará sempre em cerca de 50/50.

A razão inicial será 65% alocado em ações e 35% em renda fixa/FIIs. Na carteira de ações, 75% estará em ações brasileiras e 25% em ações do mercado acionário americano. Na carteira de renda fixa/FIIs, 50% estará em renda fixa e 50% em FIIs. Consulte os detalhes aqui.

Esta estratégia de alocação pressupõe que há uma ineficiência maior na precificação das ações do que nos outros mercados. Essa hipótese pode ser explicada pela volatilidade maior que existe no mercado de ações, fazendo com que seja mais provável a criação de bolhas ou reações exageradas por parte dos investidores.

É importante mencionar que como um dos princípios fundamentais da carteira é a redução dos custos, apenas serão feitos resgates e vendas quando um ativo perder os fundamentos (empresa com balanços ruins, FII com problemas de gestão, etc.). Isso porque resgates tendem a representar custos extras (imposto, taxas, corretagens, bid-ask spread, etc).

Assim, toda a mudança nos percentuais de alocação virá através da decisão de investimento dos novos aportes.

Estes percentuais podem ser alterados no futuro, pois servem apenas como uma base inicial. Também será considerada a diversificação em outros países além dos EUA e a divisão da carteira dos FIIs em REITs americanos também.

Enfim, vamos a execução do plano…

O plano perfeito para a independência financeira

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